03/02/2008

Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar depois,
abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio debaixo da água
vai morrendo meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
(Cecília Meireles)

02/02/2008

Salve Iemanjá!


Salve Rainha do mar, minha mãe Janaína
Canto à Iemanjá Adolê, Odoyá minha mãe!
Banha o meu corpo, limpa minha alma
Renova meu espírito, me abriga em teu íntimo
Mãe d’água Odoyá!
Bela sereia, deusa de amor e beleza.
Traz-me um amor, um beijo de mar.
Traz pra mim as certezas de um presente próspero,
da saúde do corpo, a leveza da alma
Canta ao meu ouvido, encanta os meus sentidos,
e eu me entrego ao mar
Banha meu corpo, limpa minha alma
Renova meu espírito, me abriga em teu íntimo
Mãe d’água Odoyá.
Canto à Janaína!
Linda donzela, mulher dos sete mares.
Teu porto está nos ares, onde quiser que esteja.
Dá-me segurança, constância e prudência.
Permite um banho de mar ao luar,
Permite na areia da praia eu deitar...
Faz real o meu sonhar Mãe d’água,
Traz amor pra eu amar
Canto a ti Iemanjá!
Adolê, Odoyá mainha!
Salve a Senhora dama,
Salve a Guerreira
Eleita princesa no templo do mar
Adolê, Odoyá!
Agradeço pelo que virá, pois o melhor será
Com a graça e a força de Iemanjá
Rogo a ti Janaína
Adolê, Odoyá!
Minha mãe de alma!

Hojé é dia de Iemanjá!
Senhora dos Navegantes
(02 de fevereiro
)

O Tempo é um Fio


O tempo é um fio bastante frágil.
Um fio fino que à toa escapa
O tempo é um fio.
Tecei! Tecei!
Rendas de bilro com gentileza.
Com mais empenho franças espessas.
Malhas e redes com mais astúcia.
O tempo é um fio que vale muito
franças espessas carregam frutos
Malhas e redes apanham peixes.
O tempo é um fio por entre os dedos.
Escapa o fio, perdeu-se o tempo.
Lá vai o tempo
como um farrapo jogado à toa!
Mas ainda é tempo!
Soltai os potros aos quatro ventos,
mandai os servos de um pólo a outro,
vencei escarpas, dormi nas moitas,
voltai com o tempo que já se foi!...

(Henriqueta Lisboa)